Todos os dias, lá no serviço da Mel, fazemos uma pequena reunião de manhã, antes de abrirmos a loja, e outra à hora de almoço, com o turno da tarde.
Esta semana calha-me estar presente na reunião da hora do almoço. Hoje aproveitei para ir mais cedo até lá acima, às nossas instalações sociais, tratar do nosso canário, bicho pelo qual me estou a apaixonar perdidamente.
Antes da reunião começar, começo num bate boca com uma colega minha, que tinha levado um bolo caseiro, bolo esse a que me fiz à última fatia, senão nem o chegava a provar (bestas, gulotões, que apanhem uma grandessíssima caganeira, é o que estimo e desejo). Colega essa, que simplesmente me odiava, nos tempos de formação de sala, e primeiros dias de montagem de loja. Azar dos azares, ficámos na mesma equipa, e embora, em termos de escalão nós estejamos equiparadas, ela a mim tem é que obedecer e ponto final. Mas gosto da puta da miúda. É gira, tem piada, é muito extrovertida e trabalha bem. Volta e meia precisa de alguns puxões de orelhas, mas eu gosto dela.
Ela não tem problemas nenhuns em dizer á frente de toda a gente que me odiava, que me achava insuportável, nariz empinado, convencida, sabichona, entre uma série de outras qualidades magnificas... Mas hoje é ela que se coloca à varanda dos serviços sociais, e me manda bocas do género: "xuxu, amo-te de paixão", quando estou a atender clientes. E foi ela que me ameaçou de porrada quando lhe disse que ia pedir transferência para uma outra loja, de uma outra localidade. E é ela que me manda sms de noite, quando já está na cama, a perguntar qual o horário dela nessa semana, porque simplesmente não lhe apetece levantar o rabinho que já está tão quentinho e não dá jeito ir à carteira nessa altura... E é a ela que enxugo as lágrimas, quando um grande filho da puta se lembrou de fazer das dele... e é a ela que digo: "não cedas, olha a tua dignidade e tudo aquilo que já colocaram em causa".
Gosto da miúda. E não tive nenhuma impressão dela, no primeiro contacto. Nem boa, nem má. Simplesmente, não tive. Para julgar, tenho que conhecer. Para me julgarem, teem que me conhecer. E já levei tanta sapatada na vida, que me estou simplesmente a marimbar para aquilo que as pessoas que não conheço pensam de mim. Interessa-me aquilo que as pessoas de quem gosto pensam de mim. E se a miúda hoje continua-se com a mesma opinião, isso seria gravissímo, queria dizer que me tinha transformado num monstro, sem sequer me ter dado conta.
Mas hoje ela conhece-me, o minimo dos minimos, mas conhece. E a opinião mudou... e hoje ela "ama-me de paixão"!
Acho que as primeiras impressões valem o que valem, todos temos uma história, todos somos muito mais daquilo que demonstramos ou deixamos ver.
Não sou boa, nem má...sou normal, só isso!